A Bacia do Rovuma concentra mais de 100 triliões de pés cúbicos de gás natural, projectos avaliados em dezenas de milhares de milhões de dólares e o interesse das maiores petrolíferas do mundo. Falta responder à pergunta que os números oficiais evitam: quem vai, de facto, ficar rico?
Em Janeiro de 2026, Patrick Pouyanné, presidente executivo da TotalEnergies, deslocou-se à península de Afungi, em Cabo Delgado, para anunciar ao lado do Presidente moçambicano Daniel Chapo aquilo que o sector energético aguardava há quase cinco anos: a retoma oficial das obras do megaprojecto Mozambique LNG. Numa chamada de resultados, citou com satisfação um artigo que descrevia Moçambique como “o Qatar de África”. A imagem é poderosa. O problema é que é prematura.
A escala do que está em jogo é extraordinária. A descoberta de vastas reservas ao largo da costa norte levou à decisão de investimento de cerca de 20 mil milhões de dólares em 2019 para o Mozambique LNG, com capacidade inicial próxima de 13 milhões de toneladas por ano e potencial de expansão até cerca de 43 mtpa. Em paralelo, o projecto Rovuma LNG, liderado pela ExxonMobil, aponta para cerca de 18 mtpa e um investimento de aproximadamente 30 mil milhões de dólares. A Eni já colocou Moçambique no mapa global com a Coral Sul, que produz cerca de 3,4 milhões de toneladas anuais desde 2022, e avançou recentemente com o lançamento de um concurso internacional para uma terceira unidade flutuante de GNL (FLNG) na Área 4.
Para medir a dimensão: o North Field do Qatar contém cerca de 900 triliões de pés cúbicos de gás natural e transformou o país numa potência económica global. A Bacia do Rovuma é menor, mas continua a ser uma das maiores descobertas energéticas das últimas décadas.
Durante quatro anos e meio, tudo esteve parado. Em Abril de 2021, após os ataques jihadistas em Palma, que provocaram dezenas de mortos e deslocaram centenas de milhares de pessoas, os operadores declararam força maior. O investimento congelou, o risco disparou e Moçambique saiu do radar imediato dos mercados energéticos.
A viragem começou no segundo semestre de 2025. A TotalEnergies levantou a força maior em Outubro e a ExxonMobil seguiu semanas depois, abrindo caminho para uma nova fase. Em Janeiro de 2026, o relançamento do projecto foi anunciado em Afungi, com mais de 4.000 trabalhadores mobilizados e obras retomadas em terra e no mar. O projecto encontra-se próximo de 40% de execução e aponta para a primeira exportação de GNL em 2029, enquanto a ExxonMobil prepara a decisão final de investimento para o Rovuma LNG ainda em 2026.
Os números são impressionantes. O interesse internacional é claro. Mas é aqui que começa o problema.
A taxa de pobreza em Moçambique aproxima-se dos 63%, reflectindo um agravamento significativo na última década, enquanto a economia entrou em contração em 2025 num contexto de instabilidade política, pressão orçamental e escassez de divisas. O gás já começou a gerar receitas desde 2022, mas o impacto na economia real continua limitado. Trata-se de um início, não de uma transformação.
O problema não é geológico, é institucional. A participação de empresas moçambicanas na cadeia de valor continua reduzida, a transparência sobre receitas permanece limitada e uma parte significativa do valor continua a ser capturada fora do país. Tudo isto acontece enquanto Cabo Delgado, onde está localizado o principal recurso, continua marcado por instabilidade e ataques de baixa intensidade, com forças estrangeiras a desempenharem um papel central na segurança da zona.
A comparação com o Qatar ajuda a medir o potencial, mas engana quando sugere um destino inevitável. O Qatar construiu a sua riqueza ao longo de décadas com controlo estatal efectivo, instituições sólidas e uma população reduzida. Moçambique enfrenta um contexto distinto: mais de 30 milhões de habitantes, instituições em consolidação, dívida pública elevada e um conflito activo na região mais rica em recursos.
Há ainda a concorrência global. Qatar, Estados Unidos e Austrália disputam os mesmos mercados com infra-estruturas consolidadas e relações comerciais estáveis. Moçambique entra tarde numa corrida altamente competitiva.
Para investidores, continua a ser a maior oportunidade de GNL em África na próxima década. Os projectos são reais, os parceiros são sólidos e a localização é estratégica. Mas a questão central não é se Moçambique vai exportar gás. Vai.
A questão é se vai transformar esse gás em desenvolvimento interno — empregos, capacidade fiscal e industrialização — ou repetir um padrão já visto: riqueza concentrada, crescimento estatístico e pouco impacto na vida real das pessoas.
A resposta não está em Afungi. Está em Maputo.
Fontes
- TotalEnergies — Mozambique LNG announces full restart of activities (29 de Janeiro de 2026)
- World Bank — Poverty and Inequality Platform: Mozambique (dados 2022)
- Gas for Africa — Mozambique gas reserves and LNG projects overview
- Club of Mozambique / AIM — ExxonMobil Rovuma LNG project update and FID outlook 2026

