Até hoje, quando uma empresa angolana paga um fornecedor na Namíbia, na África do Sul ou na Zâmbia, o Kwanza não viaja sozinho. Passa primeiro por um banco correspondente, converte-se em dólar ou em rand, atravessa a fronteira nessa moeda estrangeira, e só depois chega ao destino. Esse desvio tem um custo directo em taxas, prazos e imprevisibilidade cambial. O Banco Nacional de Angola (BNA) diz agora ter traçado o caminho para eliminar essa escala.
Angola começou o processo de adesão ao SADC-RTGS em 2024, depois de em 2022 ter sido um dos dois países pior integrados dos 16 Estados-membros da SADC. Nos últimos dois anos, o país concretizou três passos institucionais concretos. Primeiro, a regulamentação da participação angolana no SADC-RTGS e no TCIB, através do Aviso n.º 03/2025 do BNA. Depois, o anúncio calendarizado, em Maio e Junho de 2026, da utilização directa do Kwanza na liquidação de pagamentos regionais a partir do 2.º semestre deste ano. E, por fim, a assinatura, a 8 de Julho, de um memorando de cooperação técnica com o Banco Central do Congo (BCC) para interoperabilidade de pagamentos transfronteiriços.
Segundo comunicado oficial do BNA, de 1 de Junho, a medida está alinhada com as recomendações do G20 para a modernização dos pagamentos transfronteiriços e trará “maior facilidade no envio de dinheiro para os países da região, sem necessidade de aquisição de moeda estrangeira”, redução de custos de conversão cambial e transferências “em tempo quase real”. O governador Manuel Tiago Dias reforçou o compromisso a 8 de Julho, ao assinar com o homólogo congolês André Wameso Nkuloloki um memorando que, segundo as suas próprias palavras, visa “assistência técnica, integração, interoperabilidade dos sistemas de pagamento e a utilização de instrumentos de pagamentos digitais” entre os dois países. Segundo o governador do BNA, o entendimento nasce de uma vontade expressa pelos Presidentes de Angola e da RDC, com origem numa visita do ministro de Estado José de Lima Massano a Kinshasa.
O SADC-RTGS, operado desde 2013 pelo Banco de Reserva da África do Sul (SARB), é hoje um sistema de escala relevante. Processou, só em Junho de 2026, mais de 156 mil transacções no valor de 250,7 mil milhões de Rands, com 15 países participantes activos e mais de 7 milhões de transacções liquidadas desde o início da operação. É nesta infraestrutura já consolidada que o Kwanza se prepara para entrar como moeda de liquidação directa, um objectivo que, a concretizar-se no calendário anunciado, colocaria o Kwanza entre as moedas de liquidação do sistema regional de pagamentos da SADC.
O sinal macroeconómico mais recente reforça esse calendário. Segundo o INE, a inflação homóloga desacelerou para 10,11% em Junho de 2026, face a 10,88% em Maio, uma queda de 0,76 pontos percentuais no mês e de 9,62 pontos percentuais face a Junho de 2025. É o vigésimo terceiro mês consecutivo de desaceleração, segundo dados do INE citados pela Lusa, e um novo mínimo do actual ciclo. O Comité de Política Monetária do BNA já tinha revisto em baixa, na sua 129.ª reunião de Maio, a meta de inflação para 2026, de 13,5% para 11,5%, meta que os dados de Junho já colocam próxima de ser batida antes do previsto. O CPM reúne-se de novo a 13 e 14 de Julho, em Malanje, numa decisão que o mercado deverá ler como novo termómetro da trajectória.
ANÁLISE
Segue-se interpretação, distinta do registo factual acima.
O que estes movimentos revelam, lidos em conjunto, é uma mudança de postura deliberada por parte do BNA. Angola está a sair de uma posição estrutural de retardatário regional para uma agenda activa de internacionalização da moeda nacional, com calendário público e parcerias bilaterais a reforçar o objectivo multilateral. O memorando com a RDC não substitui a integração no SADC-RTGS, mas funciona como reforço estratégico. Angola está simultaneamente a avançar pela via multilateral, com a SADC, e pela via bilateral, com a RDC, duas frentes que se alimentam mutuamente em capacidade técnica e vontade política.
O contexto macro é, neste momento, o argumento mais forte a favor da ambição. Não é só a inflação. A conta corrente angolana fechou o primeiro trimestre de 2026 com um excedente de 1,5 mil milhões de dólares, equivalente a 4% do PIB, segundo o próprio BNA. A combinação de desinflação sustentada há quase dois anos, posição externa superavitária e taxa de câmbio relativamente estável dá ao Kwanza, pela primeira vez em vários anos, uma base técnica defensável para viajar sozinho pela região sem depender do dólar como intermediário de confiança. A internacionalização de uma moeda não avança sobre uma base macro frágil, e todos os indicadores disponíveis apontam na mesma direcção.
Para o leitor executivo, o sinal é claro. Ainda não é possível, hoje, pagar directamente em Kwanza a um fornecedor da SADC através do sistema regional. A implementação técnica está prevista para o 2.º semestre de 2026, com o próprio BNA a assumir esse calendário, sem confirmação independente da SADC ou do SARB sobre uma data fixa. Mas a distância entre Angola e essa meta encurtou de forma consistente e verificável nos últimos dois anos, e o pano de fundo macro nunca esteve tão alinhado com o objectivo. As empresas que operam na região devem começar já a preparar-se operacionalmente para a transição.
Fontes primárias consultadas: comunicado do BNA de 1 de Junho de 2026; declarações do governador Manuel Tiago Dias e do governador do BCC (Economia & Mercado, 8 de Julho de 2026); página oficial do SARB sobre o SADC-RTGS e estatísticas de liquidação de Junho de 2026; Aviso n.º 03/2025 do BNA (via Angolex); INE, dados de inflação de Junho de 2026; comunicado do BNA sobre a 129.ª reunião do CPM (Maio de 2026); comunicado do BNA sobre a conta corrente do 1.º trimestre de 2026.

