O arranque oficial da Oferta Pública de Venda (OPV) de 15% do capital social da Unitel, na segunda-feira, 6 de Julho, foi acompanhado por uma correcção generalizada nas acções já cotadas na Bolsa de Dívida e Valores de Angola (BODIVA). As quatro sociedades presentes no mercado accionista, além da própria BODIVA, negociavam em terreno negativo durante a sessão, num movimento que analistas ouvidos pela Economia & Mercado associam à realocação de carteiras para financiar a subscrição da maior oferta pública de acções da história do mercado de capitais angolano.
A dimensão da operação
A oferta, promovida pelo IGAPE em nome do Estado angolano no âmbito do PROPRIV, coloca no mercado 7,5 milhões de acções ordinárias, correspondentes a 15% do capital social da Unitel. O intervalo de preço aprovado pela Comissão do Mercado de Capitais situa-se entre 36.036 e 40.040 kwanzas por acção, o que poderá elevar o montante bruto da operação para 300,3 mil milhões de kwanzas, cerca de 280 milhões de euros.
Trata-se da maior oferta pública de acções alguma vez realizada em Angola, superando a OPV do Banco de Fomento Angola, realizada em Setembro de 2025, que movimentou cerca de 120 mil milhões de kwanzas.
Da oferta, um milhão de acções (2% do capital) está reservado aos trabalhadores da Unitel, da Unitel SPM e da Unicanda. As restantes 6,5 milhões de acções (13%) destinam-se ao público em geral.
O período de subscrição decorre entre 6 e 24 de Julho, a fixação do preço final está prevista para 27 de Julho e a admissão à negociação em bolsa encontra-se agendada para 29 de Julho.
Importa recordar que esta operação surge poucas semanas depois de a Comissão do Mercado de Capitais ter alertado que uma versão anterior do prospecto circulava sem aprovação regulatória, classificando a divulgação como uma transgressão muito grave e anunciando a abertura de averiguações. O prospecto actualmente em vigor é o aprovado pela CMC a 1 de Julho de 2026.
O choque no mercado secundário
Segundo dados avançados pela Economia & Mercado, por volta das 14 horas de segunda-feira o Banco Caixa Geral Angola liderava as perdas da sessão, com uma queda de 13,04%, negociando em torno dos 20 mil kwanzas por acção.
O Banco Angolano de Investimentos (BAI) recuava 6,53%, para 93 mil kwanzas, enquanto o Banco de Fomento Angola (BFA) desvalorizava 3,35%, fixando-se nos 101 mil kwanzas por acção. A ENSA, única seguradora cotada na bolsa angolana, caía 2,94%, para 33 mil kwanzas, ao passo que a própria BODIVA registava a menor desvalorização do grupo, com uma queda de 0,63%, negociando nos 79.500 kwanzas.
É importante sublinhar que estes valores correspondem a cotações intradiárias reportadas pela Economia & Mercado e não a dados oficiais de fecho divulgados pela BODIVA. O Ponteiro não conseguiu confirmar, até ao momento da publicação, estas cotações directamente junto da bolsa ou dos emitentes, pelo que os números devem ser interpretados como um retrato da tendência observada durante a sessão e não como os resultados oficiais do fecho do mercado.
A leitura dos analistas
A explicação avançada pelos analistas ouvidos pela Economia & Mercado assenta num fenómeno clássico de realocação de carteiras.
Com apenas cinco empresas cotadas antes da entrada da Unitel, o mercado accionista angolano continua a apresentar uma profundidade reduzida. Perante uma operação de grande dimensão e sem uma entrada proporcional de nova liquidez, parte dos investidores terá optado por vender posições na banca e no sector segurador para libertar capital destinado à subscrição da OPV da operadora.
Análise
Se esta leitura se confirmar ao longo do período de subscrição, a OPV da Unitel poderá ter exposto uma das principais limitações do mercado de capitais angolano: a escassez de liquidez.
Um mercado que só consegue financiar a entrada de novas empresas através da venda de posições já existentes dificilmente estará a atrair capital novo. Estará, sobretudo, a redistribuir os mesmos recursos por um número crescente de activos.
Com a entrada prevista de empresas como a Endiama e a Sonangol nos próximos processos de privatização, o verdadeiro teste deixará de ser apenas o sucesso da OPV da Unitel. Será a capacidade da BODIVA de crescer, atrair novos investidores e financiar novas empresas sem enfraquecer as que já integram o mercado.
Mais do que a maior oferta pública da história da bolsa angolana, a OPV da Unitel poderá tornar-se o primeiro grande teste à maturidade do mercado de capitais nacional.

