Há pouco mais de um ano, o nome Banco Sol circulava associado ao pior cenário que uma instituição financeira pode enfrentar. Em Março de 2025, a revista O Telegrama revelou que o banco tinha solicitado ao Banco Nacional de Angola (BNA) assistência emergencial de liquidez, ao abrigo do Aviso n.º 10/2023, mecanismo reservado a instituições solventes com problemas temporários de tesouraria. No próprio pedido, assinado pela gestão do banco, admitia-se que, sem intervenções significativas, o cenário poderia culminar na falência da instituição, então classificada como sistemicamente importante para o mercado doméstico.
O Banco Sol reagiu publicamente negando qualquer “risco de falência” e recusando a associação directa a um resgate com fundos públicos. Mas os factos que se seguiram confirmaram que a situação era, de facto, grave. Uma inspecção do BNA, realizada em 2023, tinha identificado insuficiências no apuramento de perdas por imparidade num montante próximo de Kz 195 mil milhões. A revisão conjunta com a auditora Ernst & Young, já sob a nova Comissão Executiva liderada por Osvaldo de Lemos Macaia (em funções desde Maio de 2024, sob a presidência do Conselho de Administração de António André Lopes), forçou a correcção do lucro líquido de 2023, que caiu de Kz 12 mil milhões para Kz 7,9 mil milhões, motivando a suspensão da distribuição de dividendos por ordem do regulador. O exercício de 2024 fechou com um prejuízo de Kz 6,9 mil milhões, ainda que o banco tenha conseguido manter a base de activos e registar um crescimento de 13% no número de clientes.
O plano que travou a queda
A resposta veio em forma de plano, e foi assumida publicamente, algo pouco comum na banca angolana. A 29 de Abril de 2025, o BNA aprovou formalmente o Plano de Recapitalização e Reestruturação (PRR) do Banco Sol para o triénio 2025-2027. O plano previa um aumento de capital de Kz 85,5 mil milhões, exclusivamente através de novos aportes dos accionistas, o encerramento de balcões com baixa rentabilidade, a redução de 30% do quadro de colaboradores, e a alienação de activos imobiliários não essenciais avaliados em Kz 30 mil milhões. Em entrevista ao Expansão, o próprio CEO reconheceu que o crédito malparado rondava os 51% da carteira, um dos números mais duros a explicar por que razão o banco chegou àquele ponto.
A execução foi rápida e visível. Entre Dezembro de 2024 e Junho de 2025, a rede de agências do banco caiu de 141 para 103, com o encerramento de mais de 30 balcões em dez províncias. Em paralelo, arrancaram os leilões electrónicos públicos de activos não-core e um processo de optimização do quadro de pessoal através de cessação por mútuo acordo. Segundo as próprias notas anexas às contas do banco, referentes a Junho de 2025, a base de depósitos cresceu 9,1% face ao final de 2024, superando a meta semestral fixada pelo próprio PRR.
O regresso ao lucro, e os números que ainda pesam
Em Julho de 2025, o banco confirmou o regresso ao lucro no segundo trimestre do exercício, invertendo a trajectória negativa que vinha desde 2024. Os dados preliminares do fecho de 2025, ainda por auditar pela EY, consolidam a leitura de superação, mas com reservas que um analista sério não pode ignorar. O prejuízo anual reduziu-se para Kz 4,17 mil milhões, uma queda de 39,55% face aos Kz 6,89 mil milhões perdidos em 2024. O activo cresceu 6,33%, para Kz 1,04 biliões. Em contrapartida, os fundos próprios caíram 6%, de Kz 82,7 mil milhões para Kz 77,67 mil milhões, reflexo directo do custo da reestruturação e da absorção de imparidades ainda por completar. O banco continua, portanto, a operar com prejuízo, ainda que decrescente, e o crédito malparado permanece uma ferida aberta.
2026, o ano da reconquista comercial
Se 2025 foi o ano da cirurgia, 2026 tem sido o ano em que o Banco Sol tenta provar, através de parcerias, que voltou a ser um interlocutor de confiança no mercado. Em Fevereiro, assinou um acordo estratégico com a AECIPA (Associação das Empresas Contratadas da Indústria Petrolífera de Angola), destinado a financiar mais de 200 empresas prestadoras de serviços à indústria petrolífera, com soluções como adiantamento de tesouraria, cobertura cambial, linhas de crédito à importação e financiamento de equipamentos, através do seu Oil and Mining Desk. Na nota que anunciou o acordo, o próprio banco reconheceu estar “num momento de transformação estratégica” e ter já concluído a segunda fase do PRR. Em Maio, reforçou a parceria com a Mastercard para lançar dois cartões pré-pagos dirigidos a PME subatendidas e ao mercado de consumo geral. Em Junho, recebeu uma delegação institucional da Visa e marcou presença na IV Angola Banking Conference, onde o seu presidente da Comissão Executiva discursou sobre rigor no crédito e estabilidade macroeconómica, exactamente os dois temas que quase levaram o banco ao colapso dois anos antes.
A leitura que um analista deve fazer
A história do Banco Sol não é a de um problema resolvido, é a de uma instituição sistémica que evitou o pior cenário através de intervenção regulatória, disciplina de gestão e sacrifício accionista, e que agora tenta provar, trimestre a trimestre, que o diagnóstico de 2024 não foi apenas um travão de emergência, mas o início de uma reconstrução real. O plano só termina em 2027. Até lá, cada balanço trimestral vai continuar a ser lido como um voto de confiança, ou uma factura por saldar. Para o mercado angolano, o caso Banco Sol tornou-se também um teste de credibilidade para o próprio BNA, que optou pela via da recapitalização assistida em vez da intervenção ou liquidação, uma escolha que, até agora, os números parecem justificar.
Fontes principais
- O Telegrama, “Banco Sol a um passo da falência” (14/03/2025) e “Banco Sol teve prejuízo de US$ 4,57 milhões em 2025” (19/02/2026)
- Expansão, “Accionistas do Banco Sol vão aumentar capital mas Administração terá de fechar agências e despedir 30% dos trabalhadores” (30/04/2025)
- Notas Anexas às Demonstrações Financeiras do Banco Sol, S.A., referentes a 30 de Junho de 2025 (documento primário do banco)
- Mercado, “Banco Sol reforça financiamento ao sector petrolífero com acordo estratégico com a AECIPA” (23/02/2026)

