O Governo angolano autorizou a Sonangol – Exploração e Produção, S.A. a ceder 5% do interesse participativo que detinha no contrato de partilha de produção do bloco 17/06, no offshore profundo do Zaire, à Falcon Oil Holding Angola, S.A., a petrolífera do grupo empresarial de António Mosquito. A cessão diz respeito a um contrato de partilha de produção localizado a 150 quilómetros da costa da província do Zaire. Com a operação, a Falcon Oil duplica a posição que já detinha no bloco, passando de 5% para 10% de interesse participativo.
O que muda no consórcio
A exploração e o desenvolvimento do bloco 17/06 continuam a ser geridos por um consórcio liderado pela TotalEnergies, que passa a ter a seguinte composição: Total Energies EP Angola Block 17/06 com 30%, Sonangol – Exploração e Produção, S.A. com 25%, SSI Seventeen Limited com 27,5%, Falcon Oil Holding Angola, S.A. com 10% e Etu Energias Bloco 17/06 (SU) com 7,5%.
Segundo o despacho assinado pelo ministro dos Recursos Minerais, Petróleo e Gás, foi a própria Sonangol – Exploração e Produção que notificou a intenção de ceder a fatia à Falcon Oil, e a concessionária nacional optou por não exercer o seu direito de preferência sobre a transacção. Ou seja, o Estado, através da Sonangol, teve a primeira opção de recomprar aquele interesse e optou por não a exercer, permitindo o reforço da posição da Falcon Oil no bloco. Analistas do sector poderão interpretar esta opção como um sinal da relevância que o grupo adquiriu junto do regulador; trata-se, contudo, de uma leitura possível, e não de uma constatação que decorra directamente do despacho.
Um activo estratégico, não um bloco qualquer
O 17/06 não é uma concessão menor. Fica na bacia do baixo Congo, em águas profundas de até quase dois mil metros, e já produziu descobertas relevantes para a TotalEnergies ao longo da última década e meia. Com 10% de interesse participativo num bloco desta natureza, operado por uma das maiores petrolíferas do mundo, a Falcon Oil passa a figurar entre os maiores participantes privados nacionais nesta concessão.
Quem é a Falcon Oil
A Falcon Oil foi fundada em 1998, no Panamá, e está hoje baseada em Angola, actuando no drilling e na comercialização de crude. O seu investimento principal é a participação de 10% no bloco 33, operado pela ESSO. A empresa detém ainda posições nos blocos 18/06, 6/06 e 02/05, este último já em produção sob operação da Somoil.
A trajectória da Falcon Oil no sector, porém, não foi linear. Entre 2014 e 2015, o Ministério dos Petróleos afastou a empresa de três blocos, 18/06, 6/06 e 15/06, com a justificação oficial de falta de comprovada idoneidade e capacidade financeira, depois de o grupo ter acumulado dívidas junto do Estado então estimadas em mais de 200 milhões de dólares. Foi um dos episódios mais citados sobre a fragilidade financeira de operadoras nacionais privadas face aos compromissos de custos dos grupos empreiteiros. A Falcon Oil recuperou terreno nos anos seguintes: em 2015, foi a petrolífera com maior crescimento de produção em Angola, um salto de 3.207% em relação ao ano anterior.
O empresário por trás da holding
António Mosquito é uma figura com décadas de presença no empresariado angolano, com negócios que atravessam a distribuição automóvel, a construção civil e o petróleo. Tem negócios ligados aos sectores do automóvel, construção civil e petróleos, é importador das marcas Volkswagen e Audi em Angola e integra a estrutura accionista da Falcon Oil. A plataforma original do grupo remonta à firma familiar Mbakassy & Filhos, ainda no período pós-1974.
O seu alcance ultrapassa Angola: Mosquito tornou-se accionista de referência do grupo Global Media em Portugal, dono do Diário de Notícias, do Jornal de Notícias e da TSF, e o seu nome surgiu também associado a um episódio internacional pouco comum para um empresário angolano. Em 2013, a Secretaria de Estado do Vaticano, sob gestão do então cardeal Angelo Becciu, chegou a estudar um investimento de 250 milhões de dólares na Falcon Oil, num plano ligado ao bloco 15/06 que acabaria por não avançar e que mais tarde viria à tona no escândalo financeiro que levou à queda de Becciu.
A leitura que fica
Reunindo os dados: um empresário que já teve licenças petrolíferas retiradas por incumprimento financeiro consolida agora, quinze anos depois, uma posição de 10% num dos blocos mais cobiçados do offshore angolano, numa operação em que a Sonangol optou por não exercer o seu direito de preferência. O percurso evidencia a permanência do grupo em sectores estratégicos ao longo de várias décadas e em diferentes mercados, de Angola a Portugal e ao Vaticano. Os números e os despachos oficiais estão à vista; as leituras sobre o que isso diz do acesso a activos estratégicos em Angola ficam, como sempre, ao critério do leitor.
Fonte primária: Despacho do ministro dos Recursos Minerais, Petróleo e Gás, citado em Novo Jornal, 7 de Julho de 2026.
Fontes complementares: Angola24Horas; Novo Jornal (2016); ANGONOTÍCIAS; Jornal de Negócios; Instituto Humanitas Unisinos; site institucional da Falcon Oil Holding Angola (links já enviados acima).

