Uma análise que compara a expansão das feiras e fóruns em Angola com os indicadores internacionais de impacto económico para perceber o que fica depois dos eventos
Todos os anos, milhões de kwanzas são investidos na organização de feiras, fóruns e conferências empresariais em Angola. Os pavilhões enchem-se, os discursos sucedem-se e os comunicados destacam parcerias e intenções de negócio. Mas permanece uma questão essencial. Quantos destes eventos se transformam efectivamente em investimento, exportações, emprego ou projectos concretizados depois de as luzes se apagarem?
OS NÚMEROS DO CALENDÁRIO ANGOLANO
A FILDA continua a ser a principal referência do calendário empresarial angolano. A 41.ª edição arranca a 21 de Julho e decorre até 26 de Julho de 2026, na Zona Económica Especial, em Icolo e Bengo. Segundo a organização, o certame deverá reunir mais de 1.400 empresas provenientes de 18 países, totalizando 2.348 participações directas e indirectas e representação de 22 países e dez províncias angolanas, sob o lema “Produzir e Inovar Localmente, Vencer Globalmente”.
Historicamente, a feira já produziu números concretos e verificáveis. Numa edição anterior, as vinte empresas brasileiras presentes no pavilhão do Brasil estimaram negócios na ordem dos 38 milhões de dólares entre contratos imediatos e expectativas para os doze meses seguintes, uma melhoria face aos 32,42 milhões de dólares registados no ano anterior.
Fora da FILDA, o Angola Economic Forum tem procurado afirmar-se como espaço de reflexão económica e aproximação entre o sector público e privado. A II edição, realizada entre 12 e 14 de Junho de 2024, contou inicialmente com oitenta empresas confirmadas e um orçamento organizativo estimado em cerca de 100 milhões de kwanzas, segundo o presidente do fórum, Alexandre Ernesto, culminando, de acordo com a organização, em 17 temas debatidos, 91 painelistas e mais de 15.000 espectadores entre presenciais e online. A edição mais recente já concluída, o AEF2025, decorreu entre 27 e 29 de Agosto de 2025 em Luanda, reunindo mais de 70 oradores sob o lema “Celebramos a História, Impulsionamos o Futuro da Economia Angolana”, em alusão aos 50 anos da independência do país, com painéis dedicados à trajectória económica angolana nas últimas cinco décadas e aos desafios prioritários para o futuro.
O Doing Business Angola, promovido pelo Jornal Económico e pela Forbes África Lusófona, consolidou-se igualmente como uma das plataformas de discussão sobre o ambiente de negócios, investimento e desenvolvimento do sector petrolífero, reunindo regularmente membros do Executivo, empresários e investidores angolanos e portugueses. A Câmara de Comércio e Indústria Portugal-Angola mantém uma agenda permanente de encontros empresariais focados no financiamento ao investimento, cooperação económica e diversificação produtiva.
A ESCALA GLOBAL PARA COMPARAÇÃO
Para perceber se o esforço angolano é proporcional, vale observar a escala em que a indústria de feiras e conferências opera globalmente. Segundo os dados mais recentes divulgados pela UFI, em parceria com a Oxford Economics, a actividade global de feiras e exposições gerou em 2024 um impacto económico total de 368 mil milhões de euros, equivalentes a cerca de 398 mil milhões de dólares, sustentando 4,3 milhões de postos de trabalho equivalentes a tempo inteiro. O sector mobilizou ainda cerca de 4,7 milhões de empresas expositoras e recebeu aproximadamente 318 milhões de visitantes em mais de 32 mil exposições realizadas em todo o mundo. Em termos médios, cada empresa expositora gera cerca de 78.800 euros de produção económica e cada metro quadrado de espaço de exposição gera aproximadamente 8.500 euros.
Na região, o comparador mais próximo e mais ambicioso continua a ser o Ruanda. Desde 2018, Kigali tem executado uma estratégia deliberada para o desenvolvimento da indústria MICE, apoiada por investimento em infra-estruturas, facilitação de vistos e promoção internacional. Segundo os rankings da ICCA referentes a 2024, divulgados em 2025, Kigali manteve-se como a segunda cidade africana mais procurada para acolher reuniões internacionais de associações, enquanto o Ruanda ocupou a terceira posição entre os países africanos. Em 2024, o país recebeu mais de 52 mil delegados e gerou aproximadamente 84,8 milhões de dólares em receitas associadas ao segmento MICE.
O que distingue estes casos de Angola não é apenas a escala. É a existência de métricas públicas, recorrentes e comparáveis ao longo do tempo. Angola continua sem dispor de um relatório equivalente aos produzidos pela UFI ou pelo Rwanda Convention Bureau.
O PARADOXO QUE OS NÚMEROS MACROECONÓMICOS REVELAM
Enquanto o calendário de eventos empresariais em Angola se expandiu de forma visível na última década, os dados de investimento estrangeiro apresentam sinais mistos e, por vezes, contraditórios. Segundo o Relatório Económico Anual de 2025 do CINVESTEC, da Universidade Lusíada de Angola, o investimento directo estrangeiro registado pelo indicador tradicional apresentou uma trajectória de forte retracção entre 2017 e 2025, reflectindo um período prolongado de perda de confiança dos investidores. Ao mesmo tempo, dados divulgados pela UNCTAD colocam Angola entre os principais destinos africanos de investimento em 2025, impulsionado sobretudo pelo crescimento registado em segmentos não petrolíferos. A diferença de metodologia ajuda a explicar a aparente contradição, mas nenhuma das duas leituras permite, isoladamente, estabelecer uma relação causal entre a realização de eventos empresariais e o comportamento do investimento estrangeiro.
ANÁLISE
Existe ainda uma questão metodológica frequentemente ignorada. Um evento pode ser bem-sucedido enquanto plataforma de contactos e, ainda assim, não produzir investimento mensurável no curto prazo. O problema não é a ausência imediata de resultados. É a inexistência de mecanismos públicos que permitam acompanhar essa conversão ao longo do tempo.
O que os dados permitem afirmar com segurança é que Angola possui hoje um calendário empresarial mais denso, mais internacional e mais profissionalizado do que possuía há uma década, sem que essa evolução tenha sido acompanhada pela criação de indicadores públicos capazes de medir o retorno económico efectivo. A comparação com Kigali é instrutiva não porque o Ruanda seja maior ou mais rico, mas porque escolheu tratar os eventos empresariais como uma actividade económica estratégica, sujeita a metas, métricas e prestação de contas. Angola dispõe de activos que o Ruanda não possui, incluindo petróleo, um mercado interno maior e o Corredor do Lobito como projecto estratégico de conectividade continental.
À entrada da FILDA 2026, Angola continua sem dispor de um sistema público e padronizado de monitorização pós-evento que permita medir quantos contactos empresariais evoluem para contratos, quantos contratos se convertem em investimento efectivo e quantos desses investimentos resultam em emprego, exportações ou crescimento económico. Enquanto essa medição não existir de forma consistente e pública, continuará difícil distinguir, com rigor, o que representa desenvolvimento económico efectivo e o que representa apenas visibilidade institucional.
Fontes primárias
FILDA 2026, Ver Angola (opinião de Arsénio Bumba) — https://www.verangola.net/va/pt/072026/opiniao/49503/FILDA-2026-a-montra-da-nova-economia-angolana-e-o-grande-encontro-de-quem-quer-crescer-A-opini%C3%A3o-de-Ars%C3%A9nio-Bumba.htm
Organização da FILDA 2026 contabiliza 2.348 participações directas e indirectas, Forbes África Lusófona — https://forbesafricalusofona.com/organizacao-da-filda-2026-contabiliza-2-348-participacoes-directas-e-indirectas/
Luanda acolhe lançamento oficial da FILDA 2026, Portal do Ministério da Comunicação Social — https://mindcom.gov.ao/web/noticias/luanda-acolhe-lancamento-oficial-da-filda-2026
Empresas brasileiras negociam US$ 38 milhões na 30ª edição da FILDA, Comex do Brasil — https://www.comexdobrasil.com/empresas-brasileiras-negociam-us-38-milhoes-na-30a-edicao-da-feira-internacional-de-luanda/
Oitenta empresas confirmam presença no Angola Economic Forum, ANGOP — https://www.angop.ao/noticias/economia/oitenta-empresas-confirmam-presenca-no-angola-economic-forum
Presidentes da AICEP e AIPEX abordam relevância do investimento estrangeiro em Portugal e Angola, Jornal Económico — https://jornaleconomico.sapo.pt/noticias/presidentes-da-aicep-e-aipex-abordam-relevancia-do-investimento-estrangeiro-em-portugal-e-angola/
Eventos, Câmara de Comércio e Indústria Portugal-Angola (CCIPA) — https://www.cciportugal-angola.pt/eventos/
UFI releases a new set of global exhibition industry statistics, UFI / Oxford Economics — https://www.ufi.org/mediarelease/ufi-releases-a-new-set-of-global-exhibition-industry-statistics/
How MICE, sports tourism became Rwanda’s cornerstones for socio economic transformation, The Great Lakes Eye — https://thegreatlakeseye.com/post?s=How–MICE,–sports–tourism–became–Rwanda%E2%80%99s–cornerstones–for–socio-economic–transformation_1994
Kigali, Rwanda strengthens Africa’s MICE tourism leadership as a US$224 million revenue target drives global events growth, MICE Travel Advisor — https://www.micetraveladvisor.com/news/article/kigali-rwanda-strengthens-africas-mice-tourism-leadership-as-a-us224-million-revenue-target-drives-global-events-growth-and-business-travel-expansion/
South Africa Events Industry Market Size and Forecasts 2032, Mobility Foresights — https://mobilityforesights.com/product/south-africa-events-industry-market
Investimento directo estrangeiro em Angola cai 59% em nove anos, estudo do CINVESTEC/Universidade Lusíada de Angola, Forbes África Lusófona — https://forbesafricalusofona.com/investimento-directo-estrangeiro-em-angola-cai-59-em-nove-anos-estudo/
Angola, investimento estrangeiro caiu 59% em nove anos, Plataforma Media (Lusa) — https://www.plataformamedia.com/2026/05/19/angola-investimento-estrangeiro/
Investimento Directo Estrangeiro em Angola consolida-se como um dos mais promissores do continente, dados UNCTAD, Sapo — https://sapo.pt/artigo/investimento-directo-estrangeiro-em-angola-consolida-se-como-um-dos-mais-promissores-do-continente-6a3a5d1297fd6ae31fdb6149

