A Bolsa de Dívida e Valores de Angola (BODIVA) atravessa um dos momentos mais reveladores da sua história. Desde 23 de Junho, praticamente todas as empresas cotadas registaram quedas significativas nas suas acções, num movimento que, à primeira vista, poderia ser interpretado como um sinal de fragilidade do mercado. A explicação, porém, aponta em sentido contrário.
Segundo apurou o Expansão, muitos investidores estão a vender posições para libertar liquidez e participar na Oferta Pública de Venda (OPV) de 15% do capital da Unitel, a maior operação alguma vez lançada na bolsa angolana.
Entre 23 de Junho e 13 de Julho, a ENSA liderou as perdas, com uma desvalorização de 18%, seguida pelo Banco Caixa Angola, que caiu 14,5%. O BAI recuou 6,9%, enquanto o BFA e a própria BODIVA registaram descidas de 2,7% e 3%, respectivamente. No conjunto, as cinco empresas cotadas perderam cerca de 260 mil milhões de kwanzas em valor bolsista em pouco mais de três semanas.
Este tipo de movimento é frequente em mercados mais desenvolvidos quando surge uma operação de grande dimensão. Em vez de representar uma fuga de investidores, reflecte uma redistribuição temporária do capital disponível para aproveitar uma oportunidade considerada atractiva.
A Unitel justifica esse interesse. A operadora apresenta activos superiores a 1,42 biliões de kwanzas e lucros de 158,4 mil milhões de kwanzas em 2025. A oferta coloca no mercado 7,5 milhões de acções, com um intervalo indicativo de preço entre 36.036 e 40.040 kwanzas por acção.
A reduzida percentagem de capital disponível para subscrição pública — apenas 15% — também contribui para o fenómeno. Perante a expectativa de um elevado nível de procura e de um eventual rateio, muitos investidores, sobretudo institucionais, optaram por concentrar recursos antes do início da oferta.
Mais do que uma queda das cotações, o momento representa um teste à capacidade da BODIVA para absorver operações de grande dimensão. Se o mercado recuperar o equilíbrio após a conclusão da OPV, a entrada da Unitel poderá ficar marcada não como um episódio de instabilidade, mas como uma demonstração de que o mercado de capitais angolano começa a ganhar profundidade e maturidade.
Fonte: Expansão (João Armando), “Corrida à Unitel provoca queda generalizada das acções na BODIVA”, publicado em 18 de Julho de 2026.

