Treze anos depois de a Forbes ter declarado Isabel dos Santos a primeira mulher bilionária de África, nenhum outro angolano voltou a figurar nas listas de riqueza da revista. O dado, confirmado pela edição “Africa’s Billionaires 2026” publicada em março, resolve uma parte da pergunta. A outra parte, se ela continua a ser a angolana mais rica, é bem mais difícil de responder com dados verificáveis.
O que os números confirmam
A Forbes distinguiu Isabel dos Santos como bilionária pela primeira vez em janeiro de 2013, com um valor então estimado em pouco mais de mil milhões de dólares, resultante sobretudo de participações no Banco BPI e na ZON Multimedia, em Portugal, e em Unitel e Banco BIC, em Angola. Uma reportagem de agosto do mesmo ano, assinada por Kerry Dolan em coautoria com o jornalista angolano Rafael Marques de Morais, elevou essa estimativa para 3,5 mil milhões de dólares, atribuindo o essencial da fortuna a participações obtidas através de contratos com empresas estatais angolanas ou por decisão direta do pai, José Eduardo dos Santos, então presidente da República.
Essa posição manteve-se, com oscilações, até janeiro de 2020, quando a Forbes ainda a avaliava em 2,2 mil milhões de dólares. A viragem ocorreu um ano depois. Em janeiro de 2021, a revista retirou-a definitivamente da lista de bilionários africanos, justificando a decisão com o congelamento de ativos avaliados em cerca de 1,6 mil milhões de dólares em três países, valor que a publicação passou a considerar inacessível e, por isso, sem base para ser contabilizado no cálculo do património líquido.
Desde então, nenhuma edição anual da Forbes voltou a incluir um angolano, homem ou mulher, na lista de bilionários do continente. A edição de 2026, publicada a 9 de março, reúne 23 nomes com fortuna combinada de 126,7 mil milhões de dólares, liderados por Aliko Dangote (28,5 mil milhões de dólares). A distribuição por país é integralmente conhecida: África do Sul (7), Egito (5), Nigéria (4), Marrocos (3), e um bilionário em cada um dos seguintes países, Argélia, Tanzânia e Zimbabué. Angola não consta da lista. Isto confirma, com base na própria metodologia da Forbes, que Isabel dos Santos permanece o único caso angolano alguma vez reconhecido pela revista, ainda que hoje já não conste dela.
Porque desapareceu da lista, não porque ficou pobre
É importante separar dois factos que a cobertura internacional tende a confundir. A Forbes não concluiu que Isabel dos Santos perdeu a fortuna: concluiu que deixou de conseguir verificar e valorizar ativos que estão judicialmente bloqueados. A distinção é relevante para qualquer análise séria sobre quem é hoje “o angolano mais rico”, porque um património congelado não é o mesmo que um património extinto.
O processo de congelamento foi construído em várias jurisdições ao longo de seis anos:
Em dezembro de 2019, o Tribunal Provincial de Luanda ordenou o arresto preventivo das contas bancárias pessoais de Isabel dos Santos, do marido, Sindika Dokolo, e do empresário Mário Leite da Silva, no âmbito de um processo em que a Procuradoria-Geral da República angolana alega um prejuízo ao Estado de 1,14 mil milhões de dólares através de operações com a Sodiam e a Sonangol.
Em Portugal, um tribunal de Lisboa congelou em abril de 2020 as suas participações na operadora Nos. Nesse mesmo ano, o governo português nacionalizou 71,5% do capital da Efacec, entretanto detido por Isabel dos Santos e pela angolana ENDE, sem indemnização aos acionistas, justificando a decisão com o impasse criado pelo arresto judicial da participação.
Em 2021, um tribunal francês confirmou que é devedora de 340 milhões de dólares à Portugal Telecom Ventures, num litígio ligado à Unitel. Em outubro de 2022, o presidente João Lourenço decretou a nacionalização da Unitel, extinguindo a sua ligação acionista à operadora que ajudara a fundar em 1998.
Em novembro de 2022, a Interpol confirmou a emissão de um “red notice” a pedido das autoridades angolanas, por alegados crimes de peculato, fraude, tráfico de influências e branqueamento de capitais. Isabel dos Santos contesta esta medida desde então, alegando que se baseia em informação falsa fabricada por motivação política; a nota continua ativa.
Em dezembro de 2023, perdeu no Supremo Tribunal de Londres (High Court) uma batalha legal para impedir o congelamento de ativos até 733 milhões de dólares, num processo movido pela Unitel relativo a créditos não pagos superiores a 400 milhões de dólares.
Em junho de 2023, a Câmara Empresarial do Tribunal de Recurso de Amesterdão condenou-a, juntamente com dois colaboradores próximos, por gestão danosa e falsificação de documentos, dando como provado o desvio de 52,6 milhões de euros da Sonangol através da holding neerlandesa Esperaza, no dia em que foi exonerada da presidência da petrolífera em 2017. Isabel dos Santos recorreu da decisão.
Em novembro de 2024, o governo britânico, através do secretário dos Negócios Estrangeiros David Lammy, sancionou-a formalmente, classificando-a como “cleptocrata” e acusando-a de desvio de pelo menos 350 milhões de libras de empresas estatais, incluindo a Sonangol.
Nem todos os processos correm contra ela. Em maio de 2026, o Tribunal da Relação de Lisboa rejeitou, por unanimidade, alegações de fraude, ocultação de património e má-fé levantadas pelo Millennium BCP e pelo Novo Banco relativamente ao financiamento de 160 milhões de euros usado para a compra da Efacec em 2015. O tribunal considerou provado que a operação foi financiada por crédito bancário privado e não com fundos do Estado angolano, uma decisão que Isabel dos Santos tem citado publicamente como prova de que agiu com integridade nesse caso concreto. É uma vitória parcial, limitada a um processo específico sobre a origem do financiamento da Efacec, e não anula os restantes processos em curso noutras jurisdições.
A pergunta sem resposta auditada: quem é hoje o angolano mais rico
Aqui a análise tem de ser honesta sobre os seus limites. Não existe, à data desta matéria, nenhuma fonte primária, auditada ou comparável à metodologia da Forbes, que estabeleça com rigor quem é atualmente o angolano com maior património líquido. Circulam na imprensa e em sites de conteúdo generalista nomes como o de António Mosquito M’Bakassy, empresário do Huambo com interesses em banca (participações no Banco Comercial Angolano, Banco Sol, Banco Caixa Geral Angola e BAI Microfinanças), automóveis e petróleo, a quem alguns sites atribuem um património superior a mil milhões de dólares. Esta cifra não tem, até ao momento, confirmação em fonte auditada, relatório de banco central, prospeto de mercado de capitais ou metodologia jornalística equivalente à da Forbes; deve por isso ser tratada como estimativa não verificada, não como facto financeiro estabelecido.
O mesmo se aplica, em sentido inverso, ao património atual de Isabel dos Santos. Os 1,6 mil milhões de dólares que a Forbes identificou como ativos congelados em 2021 já não refletem a situação de 2026: desde então perdeu definitivamente a Efacec (nacionalizada sem indemnização) e a Unitel (nacionalizada em 2022), dois dos maiores blocos de valor do seu antigo portefólio, ao mesmo tempo que outros ativos, como os 733 milhões de dólares visados pelo tribunal londrino, permanecem congelados mas juridicamente disputados. Não há, portanto, um número fiável e atual para o seu património líquido, seja para efeitos de comparação com outros angolanos, seja em termos absolutos.
Conclusão analítica
Dois factos resistem à verificação e sustentam-se em fontes primárias: primeiro, Isabel dos Santos é, até hoje, a única pessoa angolana que a Forbes alguma vez reconheceu formalmente como bilionária, entre 2013 e 2020; segundo, nenhum angolano, incluindo ela própria, consta da lista da Forbes desde 2021, e Angola continua ausente da edição de 2026, ao contrário de sete outros países africanos.
Se ela é hoje, na prática, “a mais rica” entre os angolanos é uma pergunta distinta, e sem resposta demonstrável com dados públicos e auditados. A Forbes não a exclui por ausência de riqueza, mas por impossibilidade de verificar e valorizar ativos judicialmente bloqueados em pelo menos quatro jurisdições. Qualquer afirmação categórica, em qualquer direção, sobre quem detém hoje a maior fortuna angolana, seja a favor de Isabel dos Santos, seja de qualquer empresário alternativo, carece atualmente de base auditada e deve ser apresentada como tal.
Fontes principais: Forbes (“The Unmaking of a Billionaire”, jan. 2021; “Africa’s Billionaires 2026”, mar. 2026); Wikipedia, verbete “Isabel dos Santos” (cronologia judicial, atualizada); ICIJ, cobertura do processo Esperaza/Sonangol no Tribunal de Recurso de Amesterdão (2023); Jornal Económico/Público, acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa sobre o caso Efacec (maio de 2026).

